Abrir menu de acessibilidade
Menu acessibilidade

28/09/2026

Cirurgia de emergência: quando encaminhar e quais informações enviar

Por: Guilherme Arend Pesce

 

A cirurgia de emergência envolve condições nas quais a avaliação especializada e uma possível intervenção não podem ser adiadas sem aumento relevante do risco ao paciente. Para o médico, reconhecer esse cenário é apenas uma parte da decisão: também é necessário avaliar a condição clínica atual, iniciar o cuidado compatível com os recursos disponíveis e comunicar o caso ao serviço receptor com informações suficientes para dar continuidade à assistência.

O encaminhamento para uma emergência cirúrgica não significa que o paciente necessariamente será operado. A indicação depende da avaliação da equipe receptora, da evolução clínica e dos exames disponíveis.

Este conteúdo reúne critérios gerais para apoiar o contato entre profissionais, a organização das informações clínicas e a transferência do paciente. Protocolos locais, fluxos de regulação e orientações do serviço receptor devem ser considerados em cada caso.

 

O que caracteriza uma cirurgia de emergência?

Uma cirurgia de emergência pode ser necessária quando há uma condição tempo-dependente com risco de morte, perda de função, lesão orgânica ou deterioração clínica caso o tratamento seja postergado. A prioridade não é definida apenas pelo diagnóstico: estabilidade hemodinâmica, extensão do comprometimento, velocidade de evolução, comorbidades e recursos necessários também influenciam a decisão.

Um consenso da World Society of Emergency Surgery (WSES) sobre a priorização em cirurgia aguda destaca que a gravidade da doença, a condição hemodinâmica e a presença de sepse ou choque estão entre os elementos considerados para definir a prioridade. O documento também ressalta que a classificação deve ser individualizada e adaptada ao contexto assistencial, em vez de aplicada de forma automática.

Na prática, o primeiro objetivo pode ser obter uma avaliação cirúrgica imediata, e não confirmar previamente que haverá uma operação. Casos como perfuração gastrointestinal, isquemia intestinal, hemorragia significativa, obstrução com sinais de complicação, peritonite, hérnia estrangulada e algumas complicações pós-operatórias podem demandar discussão precoce com o cirurgião.

Esses exemplos não constituem uma lista exaustiva. O caso também pode exigir avaliação de outras especialidades cirúrgicas.

 

Qual é a diferença entre cirurgia de urgência e de emergência?

Tanto as cirurgias de urgência quanto as de emergência requerem atenção em tempo oportuno. A diferença está principalmente no risco associado à espera e na prioridade da avaliação.

  • Cirurgia de emergência: envolve uma condição potencialmente crítica e tempo-dependente, na qual a demora pode aumentar de forma relevante o risco ao paciente.

  • Cirurgia de urgência: também precisa ser realizada em curto prazo, mas o intervalo seguro para avaliação, preparo e intervenção pode variar conforme o quadro clínico.

  • Cirurgia eletiva: é programada após indicação, avaliação de riscos e preparo adequado, sem a mesma necessidade de resposta imediata.

Não há um prazo único que se aplique a todas as condições. A classificação e o momento da intervenção devem considerar o quadro individual e os protocolos assistenciais correspondentes.

 

Quando considerar o encaminhamento para uma emergência cirúrgica?

O contato com o serviço receptor deve ser considerado precocemente diante de suspeita de condição cirúrgica aguda, deterioração clínica ou necessidade de recursos não disponíveis na instituição de origem. Não é necessário aguardar o diagnóstico definitivo quando a evolução ou a gravidade tornam o caso tempo-dependente.

 

Entre os elementos que podem justificar avaliação cirúrgica imediata estão:

  • Instabilidade hemodinâmica ou sinais de hipoperfusão.

  • Sangramento ativo com repercussão clínica ou suspeita de hemorragia significativa.

  • Sinais de irritação peritoneal.

  • Suspeita de perfuração, isquemia ou obstrução complicada.

  • Infecção intra-abdominal com possível necessidade de controle de foco.

  • Disfunção orgânica ou piora clínica progressiva.

  • Complicação aguda após cirurgia ou procedimento invasivo.

  • Necessidade de centro cirúrgico, terapia intensiva, diagnóstico por imagem ou intervenção especializada indisponível na origem.

Um achado isolado nem sempre define a necessidade de cirurgia. A decisão deve integrar história, exame físico, sinais vitais, exames, resposta inicial e trajetória clínica.

 

O que avaliar antes de contatar o serviço receptor?

Antes do contato, sempre que a situação permitir, é importante organizar uma síntese do caso. Ela deve informar não apenas o diagnóstico provável, mas também como o paciente se encontra naquele momento e como o quadro evoluiu. Devem ser considerados:

 

  • Condição clínica atual e tendência de melhora ou piora.

  • Sinais vitais e necessidade de suporte.

  • Medidas iniciais já realizadas e resposta observada.

  • Estabilidade e riscos relacionados ao transporte.

  • Recursos disponíveis na origem.

  • Motivo pelo qual o paciente necessita de avaliação ou estrutura adicional.

Em pacientes instáveis, o atendimento inicial e o contato com a referência devem ocorrer sem demora. Um exame não deve atrasar a discussão quando a espera puder aumentar o risco. A segurança do transporte deve ser avaliada em alinhamento com a regulação e o serviço receptor.

Equipe médica avaliando informações clínicas em tablet para encaminhamento de cirurgia de emergência
Saber quando encaminhar e quais informações enviar agiliza a decisão da equipe cirúrgica em casos de cirurgia de emergência.

 

Quais informações enviar no encaminhamento para cirurgia de emergência?

Uma comunicação estruturada reduz a perda de informações durante a transição do cuidado e permite que a equipe receptora compreenda a prioridade e se prepare para a chegada. O método SBAR (do inglês Situation, Background, Assessment, Recommendation), ou Situação, Contexto, Avaliação e Recomendação, pode ser utilizado quando fizer parte da rotina institucional.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) disponibiliza um formulário específico para referência aguda, destinado ao registro e à comunicação da condição e das necessidades do paciente entre a unidade de origem e o serviço receptor. A instituição também recomenda o uso conjunto de formulários e checklists para apoiar uma transferência estruturada.

 

Identificação e motivo do contato

Informe:

  • identificação segura do paciente

  • idade e sexo

  • instituição de origem

  • nome, CRM e contato direto do médico solicitante

  • motivo do encaminhamento e necessidade identificada

  • hipótese diagnóstica e prioridade clínica percebida

História clínica e evolução

A passagem do caso deve incluir:

  • queixa principal e início dos sintomas

  • sequência dos acontecimentos e evolução temporal

  • achados relevantes do exame físico

  • sinais vitais atuais e suas tendências

  • comorbidades e cirurgias prévias relevantes

  • alergias

  • gestação, quando aplicável

  • condição funcional prévia ou fragilidade, quando pertinente

Medicamentos que influenciem o risco hemorrágico, anestésico ou cirúrgico merecem destaque. Para anticoagulantes e antiagregantes, informe o medicamento e, quando conhecida, a última administração. Registre também o horário da última ingestão oral, quando relevante.

 

Exames realizados

Comunique os exames laboratoriais e de imagem já realizados, com data e horário. Sempre que possível, disponibilize:

  • resultados laboratoriais e sua evolução

  • laudos de ultrassonografia, tomografia, angiotomografia ou outros exames

  • imagens originais por meio seguro e compatível com o sistema receptor

  • resultados ainda pendentes

A ausência de tomografia não impede necessariamente o contato. A necessidade de imagem antes da transferência depende da estabilidade do paciente, da hipótese clínica, da disponibilidade do exame e do impacto que a espera pode ter na assistência.

 

Medidas realizadas e resposta clínica

Descreva de forma objetiva:

  • acessos e dispositivos em uso

  • suporte clínico oferecido

  • medicamentos administrados

  • antimicrobianos, fluidos ou hemocomponentes, quando aplicável

  • procedimentos já realizados

  • resposta clínica às medidas adotadas

  • intercorrências e mudanças desde a primeira avaliação

Se houver alteração relevante após o contato inicial, a equipe receptora deve ser atualizada antes da saída do paciente.

 

O que deve acompanhar o paciente durante a transferência?

O documento de transferência deve permitir a continuidade do cuidado e integrar o prontuário na instituição receptora. De modo geral, devem acompanhar o paciente:

  • Resumo clínico com evolução e achados relevantes.

  • Sinais vitais e suporte atual.

  • Exames laboratoriais, laudos e imagens disponíveis.

  • Relação de medicamentos administrados.

  • Informação sobre alergias.

  • Dispositivos e acessos em uso.

  • Resultados pendentes.

  • Identificação, CRM e contato do médico encaminhador.

  • Orientações acordadas com o serviço receptor.

O compartilhamento deve ocorrer por canais institucionais seguros, limitado às informações necessárias à continuidade assistencial. Dados clínicos não devem ser enviados por contas pessoais ou meios não autorizados pela instituição.

 

Como organizar uma transferência segura?

A comunicação direta entre os profissionais da origem e do destino é uma etapa central do encaminhamento. O contato permite alinhar o estado clínico, a capacidade do serviço, a documentação necessária, o local de entrada e o suporte requerido durante o transporte. A OMS considera a transferência um período de maior risco assistencial e disponibiliza checklists para a preparação do paciente e para a comunicação entre as equipes envolvidas.

Antes da saída, a equipe deve reavaliar o paciente, registrar eventuais mudanças e confirmar se o transporte é compatível com sua condição. A solicitação de transferência não encerra a responsabilidade assistencial pela condução do paciente. Segundo a Resolução CFM nº 1.672/2003, a responsabilidade do médico transferente permanece até que o paciente seja efetivamente recebido pelo médico do serviço de destino.

No Brasil, a Resolução CFM nº 1.672/2003 do Conselho Federal de Medicina determina que pacientes graves ou de risco sejam removidos com equipe e ambulância compatíveis com sua condição. A norma também atribui a responsabilidade inicial da remoção ao médico transferente até que o paciente seja efetivamente recebido pelo médico do serviço de destino.

A discussão inicial não confirma, isoladamente, internação, indicação cirúrgica ou disponibilidade de recurso. Esses pontos precisam ser alinhados conforme o fluxo institucional.

Paciente deitada em maca conversando com equipe médica no corredor, representando cirurgia de emergência
Em casos de cirurgia de emergência, cada minuto conta: o encaminhamento rápido e bem documentado garante que o paciente chegue à equipe cirúrgica com todas as informações necessárias.

 

Como funciona a Emergência Cirúrgica no Hospital Mãe de Deus?

No Hospital Mãe de Deus, a Emergência Cirúrgica está integrada à Emergência Geral e à estrutura hospitalar necessária para a avaliação e a continuidade do cuidado. Conforme as necessidades de cada caso, a jornada pode envolver diagnóstico por imagem, bloco cirúrgico, terapia intensiva e participação de diferentes especialidades.

Essa integração permite reavaliar a hipótese inicial e definir a conduta de acordo com os achados clínicos, os exames e a evolução.

 

Como encaminhar um paciente ao Hospital Mãe de Deus?

Para discutir um caso com suspeita de emergência cirúrgica, reúna as principais informações clínicas e acesse o canal institucional do Hospital Mãe de Deus destinado aos médicos. Durante o contato, confirme o fluxo de encaminhamento, a documentação necessária, o meio seguro para envio dos exames, o suporte indicado para o transporte e o local de entrada do paciente.

 

Revisão Técnica: 

Nome: Dr. Guilherme Arend Pesce

CRM: 25997

Cargo: Gestor de Especialidades Cirúrgicas do Hospital Mãe de Deus Revisão técnica: 

Data de atualização: 28/09/2026

 

FAQ: Perguntas frequentes sobre cirurgia de emergência

 

Todo paciente encaminhado para a emergência cirúrgica será operado?

Não. O encaminhamento solicita avaliação especializada. A indicação de cirurgia depende do quadro clínico, dos exames, da evolução e da análise individual de riscos e benefícios.

 

É necessário concluir o diagnóstico antes de entrar em contato?

Não necessariamente. A suspeita de uma condição cirúrgica tempo-dependente pode justificar contato precoce, especialmente diante de instabilidade ou deterioração clínica.

 

É possível encaminhar o paciente sem tomografia?

Sim, em situações selecionadas. A ausência de tomografia não deve impedir o contato precoce com o serviço receptor quando houver suspeita de condição cirúrgica tempo-dependente. A necessidade de realizar o exame antes da transferência depende da estabilidade clínica, da hipótese diagnóstica, da disponibilidade do exame e do impacto que a espera pode ter na assistência. 

 

As imagens dos exames devem acompanhar o paciente?

Sempre que possível, laudos e imagens originais devem ser compartilhados por um canal seguro e compatível com o serviço receptor.

 

O que deve constar no documento de transferência?

O documento deve reunir história e evolução, exame físico relevante, sinais vitais, exames, medidas realizadas, medicamentos administrados, alergias, dispositivos, pendências e identificação do médico solicitante.

 

Como encaminhar um paciente para a Emergência Cirúrgica do HMD?

O médico deve usar o canal institucional destinado aos profissionais de saúde, apresentar o caso e seguir as orientações sobre fluxo, documentação, transporte e acesso à unidade.