A história de Kauã e Alan: como a medicina fetal pode salvar vidas

Os gêmeos Kauã e Alan passaram por procedimento no Hospital Mãe de Deus

Sabe aquelas histórias que vemos em séries e filmes? No Hospital, muitas vezes elas acontecem. Com o Kauã e o Alan foi assim. 

De uma gravidez inesperada, veio a surpresa durante o exame de ecografia: “Quando a médica disse: Têm dois bebês. Nesse momento, eu ria, chorava, não sabia bem o que fazer”, lembra com carinho Daiane dos Santos, de Alto Feliz (RS). 

Ela conta que seu marido, Rodrigo, sonhava ser pai. “Sabíamos que a gravidez iria mudar totalmente nossas vidas, mas não imaginávamos quanto”, descreve Daiane. 

A partir da descoberta foram só alegrias: quando descobrimos que seriam meninos e escolhemos os nomes: Kauã e Alan. Foi então que, durante um exame de ultrassonografia, perceberam que havia um problema. “A partir deste dia iniciou a nossa luta: um dos bebês estava se desenvolvendo menos que o outro e teríamos que fazer alguma coisa, caso contrário poderia ser fatal”, conta Daiane. 

Junto com este resultado, eles receberam a indicação do obstetra do Corpo Clínico do Hospital Mãe de Deus, Dr. Jorge Teles. “Nos disseram que era um problema bem crítico e que precisaríamos de um Hospital que oferecesse um serviço especializado em Medicina Fetal. Juntamos todos os nossos esforços para salvarmos os nossos meninos”, desabafa. 

Dr. Jorge Telles passou a acompanhar o caso minuciosamente e praticamente todos os dias entrava em contato com a família. Ele procurou um parceiro que também realizasse o procedimento em São Paulo e encontrou. Quando os bebês estavam com 22 semanas, o procedimento chamado ablação de vasos placentários por fetoscopia foi realizado com sucesso. 

Dr. Jorge Teles, obstetra do Corpo Clínico do HMD, acompanhou o caso

O procedimento 

Em novembro de 2021, o Hospital Mãe de Deus realizou um procedimento de alta complexidade fetal que salvou as vidas de Kauã e Alan, ainda no útero da sua mãe, Daiane. A cirurgia fetal endoscópica (fetoscopia) para ablação de vasos com laser foi utilizada para tratar a restrição de crescimento intrauterino de Kauã. 

Gêmeos idênticos dividem a mesma placenta e, por compartilhar a mesma árvore circulatória, em alguns casos pode ocorrer de um deles se nutrir mais do que o outro, alteração denominada síndrome de transfusão feto-fetal (STFF). Era o caso da gestação de Daiane, que chegava a 22 semanas e por este motivo apresentava reais chances de um parto prematuro ou até de óbito fetal intra útero, de um ou ambos os fetos. 

“Houve um tempo em que  a única alternativa para esses casos era a vigilância semanal por meio de ultrassonografia, com indicação de parto a partir da viabilidade, e alguns procedimentos com baixa eficácia e que não reduziam o risco de morte dos fetos. Por isso, a intervenção por fetoscopia é a melhor opção, realizando a separação das circulações dos gêmeos, protegendo os fetos de um desfecho desfavorável e melhorando o prognóstico dos bebês, explica Dr. André Campos da Cunha, obstetra e ginecologista especializado em ultrassonografia ginecológica e obstétrica, um dos médicos que realizou a fetoscopia.

Procedimento de alta complexidade foi realizado com 22 semanas de gestação

A incidência da alteração de crescimento dos fetos ocorre em aproximadamente 10% das gestações de gêmeos que dividem uma placenta, ressalta Dr. Cunha. Se nada for feito, há 40% de chances de o feto com crescimento abaixo do normal vir a óbito, o que pode levar à morte daquele que apresenta índices normais, também em 40% das ocorrências. Mesmo nos casos em que ambos os gêmeos sobrevivem, há 30% de risco de sequelas neurológicas se nenhum tratamento for realizado. 

A equipe, que contou ainda com a participação do Dr. Renato Ximenes, de Campinas (SP), referência nacional em medicina fetal, comemora o sucesso do procedimento: “Trata-se de uma intervenção que evidencia como o Hospital Mãe de Deus está preparado para receber casos de alta complexidade como este, fortalecendo a capacidade e o conhecimento da equipe para novos procedimentos”, explica o Dr. Jorge Telles.

O parto e a tão aguarda alta 

No início de janeiro deste ano, seis semanas após o procedimento, quando estava com 28 semanas, um exame veio alterado e Daiane precisou ficar internada. “Sem saber quanto tempo eles iriam aguentar, eu só pensava: por favor, não nasçam ainda, vocês são muito pequenos”. 

Desse dia em diante, Daiane diz que o Mãe de Deus passou a ser a casa deles. “Ficamos três meses internados. Criamos forças não sabemos de onde, fizemos tudo por eles”, recorda. Os bebês aguentaram firme e com 31 semanas Daiane passou por uma cesariana em que correu tudo bem! 

Acolhimento durante o parto dos gêmeos envolveu a equipe assistencial

Em 42 dias, Alan teve alta. E Kauã, que no início da gravidez não estava recebendo os nutrientes necessários para seu desenvolvimento, teve a tão sonhada alta, aguardada por toda sua família, após 71 dias de internação. “Muitas pessoas foram envolvidas, moveram montanhas para salvar nossos meninos. Foi muito bonito de ver. Devemos nossa vida a eles: Dr. Jorge, Dr. André, a enfermeira gestora Clarice, Dra. Emanuele, Dra. Bruna. São nossos anjos da guarda”, agradece Daiane. 

Para finalizar, Daiane reflete sobre a importância de encontrar as pessoas certas: “Talvez, se não tivéssemos encontrado as pessoas certas, não teríamos conseguido salvá-los, pois é um procedimento disponível apenas em centros de referência . Sentíamos muita segurança em toda equipe, trabalhando e acreditando que ia dar certo,  passamos a acreditar também. E deu”, comemora com os olhos merejados de alegria. 

Questionada sobre a primeira coisa que vai fazer com os dois em casa, Daiane sorri: “Tirar fotos, muitas fotos! E postar os dois juntos, nas redes sociais”.  

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